A HISTÓRIA RECONHECE JESUS COMO UM PERSONAGEM REAL?

A Revista Veja, em sua edição de 17 de Dezembro de 2013, abordando o tema sobre a historicidade de Jesus, citou o posicionamento de Joseph Atwill, quanto a sua opinião em relação ao fato de ter existido ou não um Galileu chamado Jesus, há 2 mil anos. Ele é categórico:

 “Jesus não passa de um mito. O personagem, suas palavras e ações fazem parte de uma elaborada narrativa inventada por aristocratas romanos, com o objetivo de pacificar os judeus - um povo envolvido em sucessivas rebeliões contra o império. [...]Os romanos perceberam que o melhor caminho para acabar com a atividade missionária fervorosa entre os judeus era criar um sistema de crenças que competisse com o deles.

Alegações como esta e outras semelhantes são muito comuns entre aqueles que negam categoricamente a existência de Jesus de Nazaré. Teria este homem sido um personagem real na história? Estariam os críticos corretos em suas afirmações?

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que quando buscamos na história investigar os rastros de Jesus, não podemos com isso identificar os elementos que o caracterizam como o Cristo, relatado na Bíblia. Seu nascimento virginal, os milagres e sua ressurreição, são elementos que fogem aos métodos científicos. São, portanto, axiomas, isto é, não estão passíveis de experimentação ou observação. Apesar de serem elementos que só podem ser aceitos pela fé, vimos no artigo anterior (clique aqui e veja) exemplos de argumentos racionais e lógicos que apontam para a veracidade de tais ocorrências nos registros bíblicos.

O que iremos investigar, então, são as marcas de um Jesus humano e verificar se podemos considerá-lo real ou não na história. Sobre isso, vale destacar que, segundo o historiador André Chevitarese, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), não precisamos de elementos físicos como, por exemplo, uma ossada ou túmulo para chegarmos a uma conclusão, pois se assim fosse, 95% dos personagens históricos não seriam reconhecidos.

Começando pelo próprio professor do Instituto de História da UFRJ, Chevitarese, autor dos livros “Jesus Histórico - Uma Brevíssima Introdução” e “Cristianismo: Questões e Debates Metodológicos”, em entrevista a Veja, ele declarou:

Volta e meia aparecem essas hipóteses sobre Jesus ser um mito [como a de Joseph Atwill]. Mas, do ponto de vista metodológico, parece bastante claro que ele realmente existiu."

O pesquisador destacou, ainda, que os textos mais antigos sobre Jesus datam do século I, em sua maioria escritos por seguidores do cristianismo. Mas é especialmente interessante destacar Flávio Josefo, um historiador judeu que tentou escrever toda a história do povo judaico, desde o Gênesis até sua época. Ele cita Jesus, João Batista e Tiago (irmão de Jesus) como exemplos de homens que lideraram movimentos messiânicos na região da Galileia.

No século seguinte, surgem mais textos de historiadores que citam Jesus e, principalmente, o movimento iniciado por seus seguidores. "Esses dados servem para mostrar que não estamos no campo da mitologia. São autores judeus e romanos, que nunca se tornaram cristãos, e permitem afirmar de modo muito seguro que Jesus é um personagem histórico”, conclui.

Em 2002, foi encontrada a primeira evidência arqueológica para a existência de Jesus. O ossuário (urna funerária) de Tiago data do século 1 e traz a inscrição em aramaico “Tiago, filho de José, irmão de Jesus” (Ya’akov bar Yosef achui d’Yeshua). Oculto por séculos, o ossuário foi comprado muitos anos atrás pelo engenheiro e colecionador judeu Oded Golan que não suspeitou da importância do artefato. Só quando o renomado estudioso francês André Lemaire viu na urna, em abril daquele ano, a inscrição na língua falada por Jesus, foi que se descobriu sua importância. O ossuário foi submetido a testes pelo Geological Survey of State of Israel e declarado autêntico. Segundo o jornal The New York Times, “essa descoberta pode muito bem ser o mais antigo artefato relacionado à existência de Jesus”.

Segundo o especialista em arqueologia, Dr. Rodrigo Pereira da Silva, entrevistado pela revista IstoÉ, “a paleografia mostrou que as letras aramaicas eram do primeiro século”, disse. “A primeira e a segunda partes da inscrição têm a mesma idade. E o estudo da pátina indica que tanto o caixão quanto a inscrição têm dois mil anos.”

Finalmente, vale citar o professor Bart D. Ehrman, da Universidade da Carolina do Norte, agnóstico e um estudioso que, apesar de negar categoricamente a historicidade dos evangelhos, reconhece que há informações mais que suficientes para concluirmos que Jesus foi um personagem real na história. Em seu livro “Jesus existiu ou não?” o autor declara que, simplesmente, não pode negar os fatos que confirmam a historicidade de Jesus.

De fato, as evidências são tão abundantes que nenhum acadêmico é honestamente capaz de negar a historicidade de Jesus de Nazaré. Hipóteses como a de Joseph Atwill jamais foram sustentadas por qualquer evidência substancial, de modo que é completamente irracional continuar negando Jesus como um personagem real. Com os estudos e pesquisas de especialistas em diversas áreas podemos verificar, portanto, a veracidade histórica deste homem que marcou a história humana, cujo legado ecoa até em nossos dias.


Rafael S.

REFERÊNCIAS

CARDOSO R. Peritos negam que ossário de irmão de Jesus seja falso. Disponível em - http://www.istoe.com.br/reportagens/110487_PERITOS+NEGAM+QUE+OSSUARIO+DE+IRMAO+DE+JESUS+SEJA+FALSO -  Acessado em 22 de Março de 2016.

CRISTINA ROSA A. Tiago, filho de José, irmão de Jesus. Disponível em - http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDR53166-6010,00.html -  Acessado em 22 de Março de 2016.

EHRMAN D. B. Jesus existiu ou não? 1ª. ed. São Paulo: Editora Agir, 2014.

ROSA G. O que a história tem a dizer sobre Jesus? Disponível em - http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/jesus-historico-como-a-ciencia-pode-ajudar-a-entender-o-comeco-do-cristianismo -  Acessado em 22 de Março de 2016.


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