O TRILEMA DE EPICURO E A ORIGEM DO MAL

A história humana está marcada pelo sofrimento. Até onde nosso conhecimento alcança no passado vemos o homem sendo o causador ou vítima da violência ou da tragédia. Elas não têm hora para chegar, não pedem licença e interrompem os sonhos, no início ou na melhor parte deles, não têm a cortesia de esperá-los terminarem e tudo não tende a ser pior quando algum problema grave nos afeta diretamente ou uma pessoa que amamos muito.

Quando os problemas assolam a humanidade ou nos atingem diretamente é inevitável não nos questionarmos: Por quê? Onde está Deus quando as tragédias acontecem? Onde está ele quando a angústia chega a abalar a fé até do mais convicto teísta? Será que ele não está vendo o nosso sofrimento? Se sim, por que não faz nada? Será que ele realmente se importa conosco?

O GRANDE PARADOXO

A inquestionável existência do mal junto com a ideia da existência de um Deus de amor gera, à primeira vista, uma profunda contradição e é de longe uma grande objeção aos proponentes judaico/cristãos sobre o caráter divino. Veja o que declarou o escritor britânico C. S Lewis, na sua obra “O Problema do Sofrimento”:

A existência do sofrimento em um mundo criado por um Deus bom e todo poderoso – o problema da dor – é um dilema teológico fundamental e talvez a mais séria objeção à religião cristã.” (LEWIS, 1940)

A dificuldade em compreender essa problemática gera linhas de pensamentos como a Deísta e a Panteísta, ou leva ao ateísmo ou ao agnosticismo. Mas aqueles que não se satisfazem com pensamentos que dão fuga ao grande problema se deparam com um paradoxo sobre a natureza divina. A coexistência do amor e do mal sugerem uma tolerância do sofrimento por parte de Deus? Se Deus não tolera o sofrimento, por que o mal existe? Como Deus pode ser benevolente ao passo que sua amada criação está mergulhada no sofrimento?

Esse paradoxo reflete um trilema proposto entre os anos de 320 e 310 a.C., aproximadamente, o qual é atribuído ao filósofo Epicuro de Samos, cujo raciocínio expõe a inconsistência da realidade com a ideia de um Deus pessoal que se importa conosco. Isso conduz basicamente em analisar a coerência entre três premissas: (1) Deus é bom, (2) Deus é onipotente, (3) mas o mal existe. A conclusão mostra que, se duas premissas forem consideradas verdadeiras, então a terceira será anulada, demonstrando assim, a inconsistência no seu pressuposto. Veja, por exemplo, as três possíveis conclusões a seguir:

1º - Se Deus é amor, mas o mal existe, então ele não é realmente onipotente para impedir a existência do mal.

2º - Se Deus for onipotente, então ele não é amor, pois poderia acabar com o mal, mas não o faz. Antes, deixa sua criação no sofrimento.

3º - Se Deus realmente for amor e onipotente, então o mal não deveria existir. Se o mal é real, logo, pode ser que esse Deus onipotente e de amor não exista.

“RESPOSTAS” QUE NÃO RESPONDEM

A maioria dos cristãos, ao se deparar com um ateu ou cético propondo o trilema, costuma oferecer uma “resposta pronta” para o paradoxo, a saber, o exercício do livre-arbítrio. Isso se baseia no seguinte argumento: “Deus não pode ser responsabilizado pelo mal que o homem escolheu praticar, logo, a existência dele não fica comprometida com o mal que o homem causa”. 

Isso pode até responder parcialmente a questão, mas o que muitos não se dão conta é que esta resposta não soluciona o problema.

Veja: Se um criminoso, por exemplo, tiver seu livre-arbítrio respeitado por Deus para fazer mal a um inocente, como fica o livre-arbítrio da vítima que não escolheu sofrer na mão daquele bandido, assassino ou estuprador? Se os problemas no mundo poderiam ser resolvidos pelo homem, mas este não escolheu fazê-lo, como fica o livre-arbítrio daqueles inocentes que não queriam sofrer, mas morreram de fome ou em guerras por causa das escolhas erradas dos outros? Será, então, que Deus respeita o livre-arbítrio dos opressores, mas não respeita a escolha dos oprimidos? Perceba, então, que a alegação de Deus respeitar o livre-arbítrio humano não explica o mal das consequências sofridas por aqueles que não escolheram o sofrimento e o mal.

SE DEUS É AMOR, POR QUE O MAL EXISTE?

Falando sobre a notável dificuldade de muitos em compreender esse dilema, a comentarista bíblica Ellen G, White, em sua obra “O Grande Conflito” declarou:

Para muitos [...], a origem do pecado e a razão de sua existência são causa de grande perplexidade. Veem a obra do mal, com seus terríveis resultados de miséria e desolação, e põem em dúvida como tudo isso possa existir sob o reinado de um Ser que é infinito em sabedoria, poder e amor. Eis um mistério, para o qual não encontram explicação. E, em sua incerteza e dúvida, tornam-se cegos para verdades plenamente reveladas na Palavra de Deus, e essenciais à salvação.” (WHITE, 1858)

Para entendermos o problema do mal é fundamental que, através da fonte primária, a Bíblia, conheçamos os atributos de Deus que tenham relação com a objeção. Sendo aquele livro a fonte de informações originais, é por meio dele que devemos realmente entender a questão, sem tirarmos conclusões pessoais ou meramente especulativas. Com isso em mente, poderemos trabalhar com os pontos a seguir.

1 – A onipotência de Deus: Veja os versos a seguir:

Sei que podes fazer todas as coisas; nenhum dos teus planos pode ser frustrado.” (Jó 42:2)

Ah Senhor DEUS! Eis que tu fizeste os céus e a terra com o teu grande poder, e com o teu braço estendido; nada há que te seja demasiado difícil;” (Jeremias 32:17)

Estes são alguns exemplos de versos, nos quais muitos se baseiam (não só os céticos, mas muitos cristãos também) para afirmarem que Deus pode fazer absolutamente qualquer coisa. Para os críticos, isso gera o famoso “Paradoxo da Onipotência” (clique aqui e veja mais), cuja questão é: “Deus poderia criar uma pedra que nem ele pudesse carregar?” Se Deus é todo poderoso, então ele poderia criar tal pedra, mas imediatamente, a onipotência falharia, pois tal pedra não poderia ser levantada pelo Criador; haveria algo que Deus não pudesse fazer. Logo, segundo a sugestão do paradoxo, a onipotência é filosoficamente inconsistente ou falsa.

O problema é que não é esse o conceito ou ideia de onipotência que a Bíblia apresenta. Deus ser o todo poderoso não implica necessariamente que ele possa fazer qualquer coisa. O conceito de onipotência na Bíblia é que Deus pode fazer todas as coisas de acordo com a sua natureza e/ou caráter (1 Jo 4:8, 16; Tg 1:13, 1 Co 14:33). Ele não poderia, por exemplo, criar um ser igual a ele, não poderia mentir, não poderia pecar, não poderia cometer suicídio, não poderia deixar de ser Deus (Tt 1:2, Lv 11:44, 1 Sm 2:2, 1 Tm 1:17, Rm 1:23, 1 Jo 3:9).

Muitos confundem a ideia de “todo poderoso” com concepções de elementos ilógicos. Se Deus pudesse criar, por exemplo, um quadrado circular ou um triângulo de dois lados, então, segundo o conceito bíblico, ele não seria onipotente, mas sim ilógico. Logo, o Paradoxo da Onipotência não faz sentido se for questionado ao conceito bíblico de onipotência, pois somente será possível a criação de coisas que estejam de acordo com os parâmetros e a natureza divina. Deus ser onipotente, portanto, não significa que ele faça ou possa fazer tudo.

2 – A possibilidade do mal: O filósofo Aristóteles, buscando explicar a existência do ser e a sua possibilidade, introduziu em sua metafísica, os conceitos de potência e ato. Basicamente, a “potência” refere-se à possibilidade de algo vir a existência ou não, enquanto “ato”, é aquilo que fora “potência”, mas tornou-se realidade e passou a existir. Se um escritor, por exemplo, está pensando em escrever um novo livro, então esta obra é uma “potência” (uma possibilidade). Se o autor desenvolve essa obra e a publica, então o livro passa de potência para ato (para a realidade ou a existência de fato). O livrou passou a existir.

Assim, a partir do momento que Deus, sendo logicamente onipotente, pensa em criar seres livres, ele estará trabalhando com uma “potência”, não só com a criação em si, mas também com a possibilidade dessa criação escolher o mal. Se Deus imaginar a criação de um ser, o qual ele sabe que escolherá o mal, fará dela apenas uma possibilidade. Logo, o mal só poderá vir a existência caso tal criatura seja criada.

3 – O problema do mal: Se Deus criasse seres livres, mas não quisesse que o mal viesse a existir por meio delas, quais possíveis alternativas lógicas ele teria? (1) Ele poderia criá-las sem o livre-arbítrio. (2) Ele poderia simplesmente não criar nada. (3) Ele poderia deixar de criar somente aqueles que escolheriam o mal. Todas essas alternativas eliminam a “potência” do mal e, consequentemente, impedem que ele se torne “ato”.

Porém, em cada alternativa, encontramos sérios problemas contra o próprio caráter de Deus. Na 1ª opção, a criação de seres sem liberdade, iria pressupor um Deus arbitrário (mas Deus não é arbitrário: Sm 116:5), na 2ª opção, teríamos um Deus que não seria criador (mas Deus é criador: Ap 4:11) e, finalmente, na 3ª opção, teríamos um Deus que não seria justo e transparente (mas Deus é justo e transparente: Dt 32:4).

Perceba que quando trabalhamos com o conceito bíblico para onipotência, verificamos que Deus é todo poderoso dentro de concepções lógicas e de acordo com seu caráter e natureza, logo, o “argumento de fuga” que muitos céticos usam como “nada seria impossível para um ser onipotente”, também é invalido perante o conceito que as Escrituras apresentam. Qual seria, então, a solução para esse entrave na existência e como lidar com a potência do mal? 

4 – Hipótese para a solução do mal: Sabemos que Deus criou Lúcifer, o originador de todo o mal, e pela onisciência divina, ele sabia que aquele querubim um dia se rebelaria contra o governo do Altíssimo. Por que, então, Deus criou Lúcifer, mesmo sabendo do mal que ele causaria?

Vimos anteriormente que quando Deus criou seres livres, o mal passou a existir como uma possibilidade. A partir do momento que uma criatura escolhesse se rebelar, o mal se tornaria ato. As possíveis soluções para impedir que o mal viesse a existência, seria deixar de criar aquele que se rebelaria ou retirar o livre-arbítrio dele para que não escolhesse a rebelião. Todavia, quaisquer das opções iriam contra o caráter e natureza divina.

A única solução razoável para eliminar o mal tanto quanto ato como potência, sem transgredir o caráter e natureza divina, de acordo com a proposta bíblica, era permitir que o mal viesse a existir de fato. O mal, enquanto fosse potência, seria impossível extirpá-lo, tendo em vista que ninguém conheceria seus efeitos, não tendo parâmetros para escolhas, além de a qualquer momento alguém poder transformá-lo em ato. A permissão da transformação do mal de uma possibilidade para uma realidade faria com que toda a criação livre finalmente conhecesse o que era o mal (tomassem a ciência do bem e do mal [Gn 3:22]), testemunhasse o quão danoso ele é e pudesse ter a chance de escolher nunca mais optar pela a iniquidade.

Uma vez que a própria criação conhecesse o mal e seus terríveis efeitos, ela poderia escolher não ter mais de lidar com ele. Portanto, Deus permitindo que o mal se tornasse ato tornaria possível a destruição dele. 

A PROVIDÊNCIA DIVINA PARA A EXTINÇÃO DO MAL

Quando o mal passou para a condição de ato, tornou-se possível elimina-lo. Para que a justiça fosse feita, era necessário eliminar todos cuja natureza era inclinada a fazer o mal (Rm 6:23). Lúcifer e seus seguidores, cujos pecados lhes petrificou os corações (Ez 28:15), eliminando toda a disposição para se arrependerem de seus terríveis atos, deveriam ser eliminados da existência a fim de cessar o sofrimento, a destruição e a morte que causaram no único mundo que fizeram cair. A humanidade igualmente tornou-se má com a transgressão no Éden (Gn 3:6-19) e estava passiva de arcar com a justiça que a Lei Eterna demanda (Rm 7:11), mas algo aconteceu:

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.” (João 3:16-17)

O próprio Deus veio ao mundo como um ser humano a fim de assumir o lugar da humanidade na condenação contra o mal. A implicação mostra que Jesus Cristo pagou o preço da morte eterna para que ainda pudéssemos optar pelo arrependimento de nossas más escolhas, podermos ser salvos e ter de volta a vida eterna, para a qual fomos criados.

Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça”. (1 João 1:9)

As Escrituras afirmam que Cristo voltará a este mundo em breve para resgatar os que escolheram rejeitar o mal e aceitaram a oferta da vida eterna, por meio da fé na morte expiatória de Jesus.

Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (João 11:25)

Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também.” (João 14:1-3)


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Todo o sofrimento que vemos e experimentamos representam o mal como ato. Se ele ainda fosse uma potência, então poderíamos até não ter experimentado a dor de uma tragédia, mas também jamais saberíamos o que de fato ele é, de modo que ele seria um perigo constante, uma “bomba relógio”, não teríamos parâmetros para escolhê-lo ou rejeitá-lo e jamais saberíamos de fato a gravidade de nossas escolhas. Se não fosse conosco, seria com outros e, de qualquer forma, o mal viria à existência e causaria todos os seus terríveis frutos. Se alguém pensa que a criação pagou um alto preço por se aventurar em ignorar as advertências de Deus (Gm 2:16-17), deve saber que foi o próprio Criador que pagou o maior preço para anular a negligência da sua criação, a saber, o preço da morte eterna.

Mas isso não durará para sempre. A existência do mal e o nosso sofrimento representam apenas um capítulo de um grande livro. Infelizmente muitos críticos e céticos acabam julgando toda a obra com base apenas naquele capítulo, firmando suas convicções de forma prioritária na realidade do mal e se fechando completamente para a compreensão sincera do resto da obra. Por mais que seja dolorosa a nossa vida neste mundo, ela será apenas algumas páginas de um grande livro que, ao ser conhecido plenamente, de forma honesta e humilde, sua história fará todo o sentido.

Os últimos capítulos desta história estão marcadas com a volta triunfante de Cristo a este mundo para o resgate daqueles que aceitaram a sua oferta de salvação, por meio da morte expiatória na cruz (Ef 2:13-16) para que nunca mais, por toda a eternidade, experimentem os efeitos danosos do mal. Aquele que crê nisso, ainda que morra, será salvo no final (Jo 11:25).

Então vi um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham passado; e o mar já não existia. Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, preparada como uma noiva adornada para o seu marido. Ouvi uma forte voz que vinha do trono e dizia: "Agora o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou". Aquele que estava assentado no trono disse: "Estou fazendo novas todas as coisas! " E acrescentou: "Escreva isto, pois estas palavras são verdadeiras e dignas de confiança". Disse-me ainda: "Está feito. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. A quem tiver sede, darei de beber gratuitamente da fonte da água da vida. O vencedor herdará tudo isto, e eu serei seu Deus e ele será meu filho.” (Apocalipse 21:1-7)

Rafael S.

REFERÊNCIAS

A Origem do Mal. Diponível em <https://www.youtube.com/watch?v=hEPDED1WYxY> Acessado em 27 de Março de 2015.

Epicuro. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Epicuro> Acessado em 28 de Fevereiro de 2015.

LEWIS C. S. O Problema do Sofrimento. Diponível em https://sumateologica.files.wordpress.com/2009/07/c-s-lewis-o-problema-do-sofrimento.pdf Acessado em 22 de Março de 2015. 

O BLOG FILOSOFIA. Potência e Ato. Disponível em <http://oblogfilosofia.blogspot.com.br/2013/04/potencia-e-ato.html> Acessado em 7 de Março de 2015.

Onde está Deus quando as tragédias acontecem? Disponível em <http://esperanca.com.br/2011/04/11/onde-deus-esta-quando-as-tragedias-acontecem/> Acessado em 12 de Fevereiro de 2015.

Paradoxo de Epicuro. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Paradoxo_de_Epicuro> Acessado em 10 de Março de 2015.

PIPER J. Dois paradoxos na morte de Cristo. Disponível em <http://voltemosaoevangelho.com/blog/2011/04/morte-por-amor-deus-pode-morrer-dois-paradoxos-na-morte-de-cristo/> Acessado 26 de Março de 2015.

QUADROS L. S. Deus criou o mal? Isaías 45:7. Disponível em <http://novotempo.com/namiradaverdade/deus-criou-o-mal-isaias-457/> Acessado em 22 de Março de 2015.

WHITE E. G. O Grande Conflito. Disponível em <http://centrowhite.org.br/files/ebooks/egw/O%20Grande%20Conflito.pdf> Acessado em 17 de Março de 2015.

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