O MUNDO SERIA UM LUGAR MELHOR SEM A RELIGIÃO?

Revista francesa Charlie Hebdo é atacada por extremistas
Dois homens armados abriram fogo contra a sede da revista francesa "Charlie Hebdo", em Paris, nesta quarta-feira [07/01/2015], matando 12 pessoas, das quais oito são jornalistas. Outras onze pessoas ficaram feridas -- quatro delas foram internadas em estado grave.(Notícias UOL)
 O episódio que abalou a França e o mundo na última semana teve uma força ainda maior no sentido de reacender discussões sociais de forte impacto. O assassinato de profissionais em uma revista satírica em Paris levantou debates no planeta inteiro sobre pelo menos dois temas: intolerância religiosa e liberdade de expressão e de imprensa. Conforme os próprios autores do massacre na revista Charlie Hebdo, o ato praticado foi uma vingança pelo fato de a publicação veicular tirinhas e desenhos considerados ofensivos ao profeta Maomé e à religião islâmica.

INTRODUÇÃO


Muitos acreditam que a religiosidade no mundo é a raiz para vários males na humanidade, em vista dos grandes e lamentáveis acontecimentos motivados pela fé, dos quais marcam as tristes páginas da nossa história. O filósofo americano Sam Harris, quando soube que o atentado ao World Trade Center em Nova York (Estados Unidos), no dia 11 de setembro de 2001, teve motivações religiosas, publicou em 2004, o livro “A Morte da Fé”, uma brutal investida contra as religiões, segundo ele, responsáveis pelo sofrimento desnecessário de milhões de pessoas. A repercussão de sua obra foi tal que, em 2006, veio o livro-resposta “Carta a Uma Nação Cristã”, agora, sob as perspectivas mulçumana, católica e outras.

O biólogo e escritor britânico, Richard Dawkins, em relação aos diversos conflitos no mundo motivados por questões religiosas, chegou a parafrasear uma famosa canção de John Lennon, dizendo:
Imagine nenhum homem-bomba, nenhum 11 de setembro, nenhuma Cruzada, nenhum conflito na Irlanda do Norte [Católicos vs Protestantes], nenhuma guerra entre Israel e Palestina. Imagine nenhum Taleban para explodir as estátuas gigantes de Buda no Afeganistão
Para muitos, estes conflitos pelo mundo diminuiriam para quase zero se não houvesse religião, especificamente, se não houvesse crença em Deus ou em deuses. Mas, será que o mundo seria mesmo um lugar melhor sem o exercício da fé?

ORIGENS DA CONTEMPORÂNEA RELAÇÃO ENTRE O MAL E O EXERCÍCIO DA FÉ

O filósofo alemão, Karl Marx, em seu livro “A Crítica da filosofia do direito de Hegel” de 1843, chegou a afirmar:
A religião é o ópio do povo.
Marx foi um dos primeiros a disseminar a ideia de “religião” e “ópio” de forma implacável, embora não tenha sido o originador dessa relação. Para ele, o desaparecimento da fé religiosa, a qual era interpretada como “ilusão da felicidade”, era a única e a principal condição pela qual o povo poderia ser realmente feliz.

As raízes dessa rejeição, tanto de Marx quanto de outros intelectuais que seguiram o mesmo pensamento, pareciam ser uma resposta às práticas religiosas medievais, as quais trouxeram traumas para a humanidade quando seus líderes confinaram a pureza das Escrituras à mera vontade humana e tomaram as rédeas dos acontecimentos em nome de Deus, ajudando a escrever os mais horríveis episódios da nossa história, ocorridos num período denominado Idade das Trevas (do século V ao XV).

O historiador americano Edward M. Burns, em seu livro “História da civilização ocidental”, nos dá uma ideia de como era aquela realidade. Imaginar as condições mais deploráveis e subumanas dificilmente daria alguma ideia precisa sobre aquela realidade, pois mundo era mergulhado num caos tal que só a descrição histórica do dia-a-dia daqueles tempos já causa perplexidade a qualquer cidadão de nossos dias.

Se pudéssemos andar pelas ruas de Roma ou qualquer outra cidade ocidental do século IX, por exemplo, nos depararíamos com um mundo deplorável. Segundo os relatos históricos, as condições de vida eram pavorosas e a felicidade era a última coisa a se contemplar nos rostos dos transeuntes. Os vilarejos tinham uma aparência triste e cinzenta e as condições de vida ali eram extremamente precárias. Até os castelos, ocupados pelos nobres, não eram mais confortáveis que uma dispensa imunda aos fundos de uma casa jogada às traças, pois eram construídos de pedra, geralmente cercados por água e quase não tinham janelas, a fim de dificultar ataques inimigos. O ambiente interno era lúgubre, sem banheiros e as camas repletas de pulgas e percevejos.

Mas o que mais chamaria a atenção, certamente, seria o fato de as pessoas serem muito necessitadas e subnutridas, tendo em vista que a maior parte de sua árdua produção teria de ser entregue aos nobres, o que fazia muitas vezes os camponeses passarem fome, tendo de comer gramas, vermes e até terra. As péssimas condições de higiene, a má conservação dos alimentos, e o quase inexistente sistema sanitário eram normalmente responsáveis por proliferação de doenças que muitas vezes levavam a morte.

Com todos estes problemas, dá para imaginar o porquê que a população tinha uma expectativa de vida que, dificilmente, passava dos 30 anos.

Os efeitos da religião opressora eram notados, ainda, na ignorância do povo, tendo vista a raridade de livros e um número inferior a 5% da população tendo acesso a eles. Dentro dos feudos, os quais eles constituíam como um sistema urbano do ocidente, as pessoas eram completamente analfabetas, não sabendo praticamente nada sobre filosofia, religião, arte ou ciência. A vida fora dos muros era uma completa obscuridade e o assunto diário não ia muito além daquilo que tratava das condições locais ou dos mitos que eram ensinados em nome de Deus.

E, como sempre, onde há a miséria, há ditadores que tiram proveito da situação. Enquanto o povo morria as minguas, o clero e os senhores da nobreza se divertiam em um imundo paraíso de injustiças e desperdícios. Os senhores podiam tanto bater em seus servos quanto matá-los impunimente, mas era a utilidade econômica deles que refreava as brutalidades.

Neste mundo de misérias, a esperança do povo vinha, logicamente, da igreja, com promessas de vida melhor em um paraíso, com mansões de ouro, um banquete farto e o fim de todo o sofrimento. Contudo a própria instituição religiosa era partidária daquela situação de extremo sofrimento, pois ela não permitia que o povo tivesse acesso a elementos mínimos de formação digna humana, como por exemplo, a cultura e o conhecimento. Para eles, a ignorância e o analfabetismo era apenas um instrumento para intensificar a fé do povo, não em Deus tal como a Bíblia realmente descreve, mas sim, nos dogmas, superstições e tradições da antiga igreja medieval. Milhares morreram ouvindo o nome de Jesus Cristo sem jamais contemplarem, sequer, um exemplar das Escrituras ou conhecerem o real conteúdo daquele livro.

Daí torna-se perfeitamente compreensível o desprezo de Karl Marx e sua motivação em escrever aquela obra, cujo conteúdo tem servido de base por muitos intelectuais contemporâneos, além do radicalismo e fundamentalismo de nossos dias.

OS RISCOS DAS IDEOLOGIAS ANTIRRELIGIOSAS

A crítica contra a religião, contudo, assume uma postura perigosa e, diga-se de passagem, injusta, porque costuma analisar de forma parcializada tais fatos e atribuir de forma generalizada o mau exemplo de alguns a todos. Não só muitas religiões são criticadas hoje por causa do mau exemplo de um pensamento do passado, como também a generalização afeta a todos por atos isolados. É o que vem ocorrendo, por exemplo, na França após o atentado contra a Charlie Hebdo e também em outros países que sofreram ataques de terroristas, onde muçulmanos de bem são perseguidos, agredidos e algumas vezes até mortos, apenas porque partilham da mesma base de fé que os radicais islâmicos.

Os movimentos e sentimentos contra a religião que emergem de episódios como estes não diferem muito das ideologias desenvolvidas após a Idade das Trevas. Seus resultados passados, contudo, foram radicalmente opostos à realidade idealizada pela utopia.

As maiores guerra travadas no século XX, por exemplo, dos quais foram responsáveis por um número de mortes e atrocidades muito superior àqueles motivados por questões religiosas, foram originados justamente pelas ideologias que propunham o fim da religião e do exercício da fé. Foram conflitos desencadeados por líderes ateus e antirreligiosos que acreditavam ser a religião a causa da intolerância e a violência.

Baseados em tais proponentes, Josef Stalin e Vladimir Ilitch Lênin levaram à morte mais de 25 milhões de russos, sem contar os estrangeiros. Na década de 50, na China, Mao Tsé-Tung iniciou um programa revolucionário ateu e comunista que foi responsável por cerca de 70 milhões de mortes; estima-se que cerca de 700 mil chineses chegaram a ser mortos em um único ano por se oporem ao seu governo. Já no Vietnam, Ho Chi Minh foi o principal responsável pela sangrenta guerra do Vietnam e, no continente africano, Idi Amin Dada, o pior ditador da história de Uganda, foi responsável por milhares de mortes em seu país.

À bem da verdade, também é preciso reconhecer e admitir que nem toda cosmovisão religiosa pode ser considerada boa para a humanidade, ao contrário do argumento do lado mais liberal da teologia, cuja proposta coloca em igualdade todas as religiões. Ele consiste em afirmar que não há diferença entre suas práticas, a despeito do que pode ser considerado bom ou ruim a partir de um ponto de vista externo, porque ela seria relativa. Mas isso não pode ser razoável.

Será que poderíamos colocar em igualdade, por exemplo, a prática do batismo cristão com a cultura da circuncisão feminina praticada no Curdistão, que consiste em mutilar o órgão genital das meninas, logo depois de uma costura sem anestesia para que seja violentamente rompida no dia do casamento? Seria o genocídio religioso de David Koresh uma prática digna de respeito por pessoas munidas de plena função mental? E o próprio atentado do dia 11 de setembro de 2001 ou o ataque a Charlie Hebdo no dia 07 de janeiro? Poderia eles ser atos tão nobres quanto às ações humanitárias de Madre Teresa de Calcutá?

A VERDADEIRA CAUSA DO SOFRIMENTO

Colocar a religião como responsável por derramamento de sangue hoje e no passado é uma posição parcializada. O que deve ser reconhecido como ponto em comum, não é se os responsáveis pelas barbáries eram religiosos, mas sim, que nas religiões há homens mal intencionados e perversos que não correspondem necessariamente com aquilo que dizem acreditar ou seguir. Não faz sentido dizer que a religião é a causa do sofrimento no mundo quando ela mesma, pelo manos a grande maioria das crenças, propõe o amor fraterno e a valorização da vida.

Independente de haver religião ou não, o problema está no ser humano, de modo que a ausência da religiosidade de forma alguma é garantia de que o mundo seja um lugar melhor ou menos violento e tão pouco, que uma visão antirreligiosa global seja a solução para os problemas.

A DIFERENÇA ENTRE A RELIGIOSIDADE HONESTA E A DE ALIENAÇÃO

Exemplificando especificamente o cristianismo, Martinho Lutero, em suas pesquisas realizadas no Castelo de Wittenberg, fez uma radical descoberta a partir de um estudo aprofundado de Romanos 1:16-17, que diz:
Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá pela fé.”
Em total contrariedade ao sistema perverso de seus dias, Lutero descobriu o significado redentor da justiça de Deus que, noutras palavras, mostra que a justiça é algo que Deus oferece ao homem e não algo cobrado dele, pois o pecado representa apenas um grão de areia na montanha que é o amor de Deus; uma gota de água no oceano que é a sua graça. Lutero concluiu, que o Deus visto na Bíblia nada tinha a ver com as caricaturas que foram forjadas sobre a divindade ao observar que ele é vivo e atuante, mais interessado em salvar a humanidade do que uma mãe teria interesse de tirar um filho de uma casa em chamas, isso sem contar o ápice do ensino bíblico que é o incondicional amor ao próximo.

Em 31 de Outubro de 1517, então, Lutero fixou as 95 teses sobre a justificação pela fé, na porta da capela de Wittenberg, contrariando muitos dos dogmas sustentados pela igreja medieval, passando muito longe do que poderia ser chamado de uma visão alienada proposta por Marx. Isso mostrava, na realidade, que a religião da Bíblia, longe de qualquer caricatura que faziam e ainda fazem dela hoje não é, de modo algum, um ópio para o povo. Seu trabalho revolucionou o cristianismo, de modo que o conhecimento bíblico, hoje, transformou completamente suas estruturas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As mais tristes páginas da história da humanidade foram escritas tanto por religiosos quanto por antirreligiosos, fato este que já torna profundamente questionável a acusação exclusiva contra a religiosidade feita por Sam Harris, Richard Dawkins e outros pensadores contemporâneos, bem como aqueles do passado, como Karl Marx.

A história mostra, na realidade, que o mal da religião é originado por indivíduos inseridos nela ou por indivíduos maus que fundam suas próprias visões religiosas que não seguem necessariamente os proponentes daquilo que eles mesmos dizem exercer fé na originalidade. É verdade, sim, que existem visões de fé prejudiciais para a humanidade, contudo, a generalização sem uma análise específica de seus fundamentos é um erro baseado no preconceito gratuito.

Deus, apesar de amar cada ser humano incondicionalmente, abomina completamente algumas formas de visões religiosas (Mt 7:21-23) e a sua lei, por meio da Bíblia é um poderoso instrumento para a conscientização humana, a respeito da sociedade, da história e do próprio homem, não endossando em absolutamente nada o fanatismo, a violência, o preconceito, a discriminação e etc., tão fortemente e corretamente repudiado pelos críticos. Da mesma forma devem ser analisadas as demais religiões, sem que a julguemos prioritariamente apenas porque um pequeno grupo distorce os fundamentos da sua própria fé.

Não se pode, portanto, confundir as caricaturas acerca de Deus ou das religiões feitas por seres humanos problemáticos, com os reais proponentes da fé, isto é, aqueles que apenas edificam e são capazes de transformar positivamente qualquer homem e em qualquer época. A distinção entre o mau religioso e a religião é o cuidado que qualquer antirreligioso deveria ter antes de desferir por aí seus ataques indiscriminados.


Rafael S.

REFERÊNCIAS

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