POSSO SER AMIGO DE UM ATEU?

"Debater é uma arte essencial (...) Prefiro mil vezes um debate que não chegue a uma conclusão a uma conclusão que dispense um debate. Conclusões que não foram exaustivamente discutidas são como soluções vazias para um problema que nem foi sistematizado. Neste processo, é muito importante que haja espaço para boas discussões. Veja, eu disse “boas” discussões. É uma pena que certos comportamentos belicosos tenham dado à palavra discutir um novo sentido semântico que não tinha nada a ver com aquele original de quando o termo foi criado. (...)

(...) “discutir” seria pegar um assunto e agitá-lo, até ele se dividir em partes menores e se desprender daquelas que seriam periféricas. Assim, ele fica mais fácil de ser digerido, pois não podemos compreender tudo de uma só vez. É por isso que, em qualquer discussão, todos os envolvidos parecem ter sempre um pouco de razão: cada um só vê a parte que lhe interessa, a do outro é sempre a terra a ser desprendida ou o pedaço de raiz que não serve para nada. O importante, portanto, numa discussão, é superar a tendência partidarista e usar as partes “sacudidas” para se alcançar, senão o consenso, pelo menos o respeito por aquele que discorda de nossa opinião.

Seria a busca por esse respeito uma utopia? Bem, somando a ideia de que “a esperança é a última que morre” ao fato de que sou um homem de fé, ainda acredito que é possível discordar com respeito. E vou mais além: é possível ser amigo de alguém de quem você discorda profundamente? Também creio que sim.

(...) como pode existir amizade numa situação dessas? Podem um crente e um ateu se tornarem amigos? Ora, se o que eu acredito for verdade, eu e o [ateu] somos filhos de um mesmo Deus. Se o que ele diz for verdade, também somos todos parentes por ter uma ancestralidade comum. Logo, no frigir dos ovos, independentemente do modelo adotado, somos todos irmãos. Então, por que se comportar como se fôssemos um bando de porcos-espinhos numa noite de inverno? Devemos ser mais evoluídos do que isso!

(...) Ao contrário do que alguns supõem do caráter de um ateu, [no almoço] ele não [pede] “criancinhas ao molho pardo” e eu também não [peço] alfafas. Ele não é canibal e eu não sou burro. Somos dois pensadores tentando entender a vida e o sentido de nossa existência. Temos todas as respostas? É claro que não! Mas as estamos buscando. Cada um a seu modo. Ele me deseja um “bom culto” quando digo que vou para a igreja. E eu digo que “orarei por ele”. Não há ironias, nem desaforos, apenas respeito um pelo outro, sem desconsiderar os pontos nos quais discordamos.

Como cristão, eu tenho de entender que não sou dono da verdade e não sei tudo sobre Deus. E como dizia uma velha canção católica: “às vezes quem duvida e faz perguntas é muito mais honesto do que eu”. Deus é menos ofendido pela sinceridade de um ateu do que pela hipocrisia de um santo. É claro que meu desejo é que um dia o [ateu] acredite em Deus. E se isso não ocorrer? Que me importa? Pela evolução ou pela criação ele continua sendo meu irmão e merece meu respeito. Devemos defender com paixão aquilo no qual acreditamos, mas alguns preferem defender com “raiva” e isso não é nada bom!" 

Carta escrita pelo Dr. Rodrigo Silva ao Prof. Leandro Tessler da Unicamp. O texto original pode ser conferido aqui e aqui.

(Rodrigo Silva é graduado em teologia e filosofia, doutor em teologia e doutorando em arqueologia clássica pela USP)

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